De novo a maior notícia do GP da Áustria, disputado neste domingo em Spielberg, não é a vitória de Lewis Hamilton, da Mercedes, mas a colisão entre seu carro e do companheiro de Mercedes, Nico Rosberg, na última volta, na curva 2 do Circuito RB Ring, quando o que estava em jogo era o primeiro lugar. O fato de o piloto inglês ter reduzido a diferença que o separa de Rosberg, na liderança do Mundial, de 24 para apenas 11 pontos (153 a 142), dando-lhe a chance de na próxima etapa, já domingo, na sua casa, Silverstone, tornar-se líder do campeonato, por incrível que pareça ganhou menos importância do que pode acontecer, agora, na Mercedes. Seus diretores ficaram furiosos.Os comissários desportivos também, notadamente com Rosberg. Acrescentaram 10 segundos ao seu tempo de prova e lhe deram dois pontos na carteira, os primeiros. Os 10 segundos não alteraram a colocação final do piloto, quarto.
O diretor geral da equipe, Toto Wolff, sempre muito moderado, foi flagrado dando um soco na mesa, dentro dos boxes, ao ver o choque entre Rosberg, defendendo o primeiro lugar, e Hamilton, a 3 quilômetros da bandeirada.
- Temos, agora, de olhar as opções que estão sobre a mesa. E uma delas é congelar a classificação de cada piloto em determinado momento da corrida - afirmou Wolff.
Toto Wolff foi flagrado dando um soco na mesa durante a colisão (Foto: Getty Images)
Em outras palavras, impor a tão combatida ordem de equipe.
- Não é popular, me enoja, porque gosto de assistir à competição, mas se não é possível sem que haja contato (entre seus pilotos), então a consequência será essa - disse o dirigente austríaco.
Curiosamente, a possibilidade de Hamilton e Rosberg poderem deixar de lutar pelas vitórias, a fim de evitar o risco de novos acidentes, surge exatos 14 anos depois de, no mesmo local, o Circuito RB Ring, na época A1-Ring, as ordens de equipe serem proibidas pelo então presidente da FIA, o inglês Max Mosley.
Lewis Hamilton exibe o troféu do GP da Áustria (Foto: Reuters)
Na edição de 2002 do GP da Áustria, Rubens Barrichello freou a Ferrari a metros da linha de chegada para Michael Schumacher, seu parceiro, vencer, a fim de acatar a imposição do time repassada via rádio. Poucas vezes a F1 perdeu tanto com os seus fãs quanto naquela ocasião. Em 2010, quando Jean Todt assumiu a FIA, essas ordens voltaram a ser permitidas.
O que gerou tanta polêmica de novo, neste domingo, foi o fato de a Mercedes ter ficado muito perto de, a exemplo do GP da Espanha, em maio, seus dois pilotos abandonarem o evento por colidirem entre si, jogando fora o trabalho duro de cerca de mil integrantes, entre o grupo de chassi e unidade motriz, e o enorme investimento necessário para disputar o GP da Áustria. Desperdiçaram, contudo, a terceira dobradinha da temporada.
O CENÁRIO DA HISTÓRIA
Os responsáveis pelo ocorrido deram sua versão dos acontecimentos. O GloboEsporte.com estava lá para ouvi-los. Antes, é preciso expor o cenário em que a história se desenvolve. Hamilton havia largado na pole position e sua estratégia era de um pit stop. Rosberg faria duas.
- Quando percebemos que duas paradas era mais seguro, mudamos a de Hamilton - falou Wolff.
O inglês era líder até a 21ª volta, com ultramacios, e ao parar e regressar à pista, com macios, viu Rosberg, em excelente prova, pois largou em sexto, assumir a liderança. Ele havia parado ainda na 10ª volta e saiu com macios. Os dois fariam um segundo pit stop. Hamilton na 54ª, a apenas 17 da chegada, e Rosberg, na seguinte. O inglês colocou macios e o alemão, supermacios.
Apenas na penúltima volta Hamilton encostou, de fato, em Rosberg, pois seus pneus, macios, demoram mais para esquentar que os supermarcios do companheiro. E a luta ficou acirrada. Iniciaram a 71ª e última volta com uma diferença de 599 milésimos. Rosberg na frente. Pouco antes, Wolff disse que Rosberg perdeu o controle eletrônico (fly by wire) dos freios traseiros, tornando a freada um pouco mais longa.
Os dois deixaram a curva 1, à direita, e entraram na reta que antecede a curva 2, também à direita, separados por poucos metros, dando a chance a Hamilton de se aproveitar do vácuo do carro à frente para tentar a ultrapassagem na freada da curva 2. Nessa reta não é permitido o uso do flap móvel (DRS). Pronto, o cenário está agora montado para o que vem a seguir.
A PALAVRA DE CADA UM
Rosberg:
- Eu estava por dentro (da trajetória de aproximação da curva 2), me defendia, por isso não preciso seguir a linha ideal. Lewis vinha pelo lado de fora, queria mantê-lo lá, claro.
Hamilton explica seus movimentos:
- Nico cometeu um erro na curva 1, ao tocar a zebra interna e ter de alargar na saída da curva. Isso me deu a chance de colar nele e tentar ultrapassá-lo na freada da curva 2.
Ainda Hamilton:
- Ele fechou a porta interna, portanto o único caminho para mim era o externo. Eu estava na linha usada na corrida. Ele ficou no meu ponto cego.
Lewis Hamilton: "Ele fechou a porta interna, portanto o único caminho para mim era o externo" (Foto: EFE)
Isso quer dizer olhar no espelho e não ver o adversário.
- Mas eu sabia que ele estava lá, por isso segui a trajetória larga (fazer a curva bem por fora), a fim de lhe deixar bastante espaço e só então comecei a girar o volante (para começar o contorno da curva 2).
A vez de Rosberg, agora:
- Deixei espaço para Lewis para evitar a colisão. Isso é um fato. Vocês podem verificar na câmara on board. Nesse instante Lewis virou o carro na minha direção. Foi um completa surpresa para mim, tanto que colidimos. Ouvi dizer que Lewis falou na TV que eu estava no seu ponto cego, talvez seja essa a razão de ele ter virado o volante.
A réplica de Hamilton:
- Eu estava no limite da pista e ele colidiu comigo. Eu voltei para a pista o mais rápido que podia. Estávamos bem próximos.
Não aprenderam a lição
Wolff assistiu a tudo sem interferir no rádio, antes, por acreditar que ambos haviam aprendido a lição do duplo abandono ainda na primeira volta do GP da Espanha. O austríaco conta:
- Meu instinto dizia que eles haviam entendido o que aconteceu em Barcelona, com os dois fora da prova, sentiram as consequências e, pensei, não vai ocorrer de novo.
O diretor da Mercedes prossegue:
- Achei que tinha ficado claro, mas de novo eles se chocaram. Não vou acusar ninguém porque cada vez que você vê o vídeo ou na câmara on board descobre uma informação nova. Não posso dizer esse ou aquele é o culpado. Tenho a minha visão, mas não vou expressá-la. Apenas digo que eles deveriam ter evitado a colisão.
Rosberg conversou com os jornalistas somente no início da noite, pois ele e Hamilton foram chamados pelo diretor de prova, Charlie Whiting, convocados pelos três comissários desportivos, para dar sua explicação do acidente. O alemão falou:
- Eu estava disputando uma das melhores corridas da minha vida até a última volta. Sinto-me extremamente frustrado, tinha a vitória na bolsa. A colisão, como disse, me pegou de surpresa.
Hamilton:
- Para começar, eu não entendo com precisão por que eu estava em segundo lugar enquanto eu era o líder (até a 21ª volta e ninguém o ultrapassou na pista). Acho que por causa do safety car eu acabei em segundo. Mas eu nunca desisti, eu dei tudo o tempo todo. Sabia que preciso de pontos. Sabia da existência de muitos fãs meus aqui. Alguns vieram de longe. Fiz todo o possível para não sair da luta.
Antes, havia dito:
- Eu não vim aqui para ser segundo, vim para vencer. E foi o que fiz. Não há controvérsia na minha manobra sobre Nico.
COMO SENNA, LÓGICO
Na conversa com a imprensa depois das explicações aos comissários, Hamilton foi lembrado de que a disputa com Rosberg se assemelhou às protagonizadas por Ayrton Senna e Alain Prost. E lhe perguntaram com quem se identificava.
- Senna sempre foi o meu favorito. Não sei como foi ver, hoje, do lado de fora, mas posso garantir que para mim, lá dentro, vivi fortes emoções. Precisamos de corridas assim, disputadas.
A mesma pergunta é endereçada aos dois pilotos: como encarar as possíveis ordens de equipe que Toto Wolff pode impor, ou restrições à luta entre ambos, para evitar de a Mercedes ter prejuízo, como em Barcelona e Spielberg, este ano.
- Aceitaria, pois é algo que não está sob meu controle - respondeu Rosberg.
- Eu quero competir, vim para a F1 para tentar ser o melhor. Como telespectador, ficava muito desapontado, no passado, pois não queria ver ordens de equipe. Toto e Lauda nos deixaram livres por quase três anos já e espero que não mude, em razão do meu amor pelo esporte - disse Hamilton.
AINDA NÃO CONVERSARAM
Os dois se falaram, depois do incidente?
- Não, ainda não. Vamos nos reunir, todos, na equipe. Eu quero perguntar a Lewis por que ele virou o volante daquela maneira para iniciar a curva - declarou Rosberg.
Hamilton respondeu:
- Nos encontramos diante dos comissários, apenas. Não temos o que discutir. Às vezes vivemos situações como a de hoje e temos muitas corridas pela frente, ainda. Estou lutando pelo título e vou continuar assim. Espero, apenas, que enfrentemos menos vezes momentos semelhantes aos daqui na Áustria.
Como Rosberg adiantou, todos estão convocados para uma discussão em grupo, possivelmente nesta segunda-feira, na sede da Mercedes em Brackley, Inglaterra, próxima a Silverstone, local da décima etapa do calendário, domingo. Wolff comentou:
- Preciso enfiar a cabeça numa bacia de água gelada antes de tomar uma decisão.
Nunca o jovem diretor, sócio da equipe, uma grande nova liderança na F1, das mais capazes, demonstrou perder o controle como hoje.
- Estou cansado de analisar isso (quem tem culpa nos incidentes entre seus dois pilotos). Simplesmente não quero mais contato entre eles. Temos corrida já no próximo fim de semana. Vamos discutir internamente como será, a partir de agora, quando um se aproxima do outro.
Deixou claro que “a política de transparência” da Mercedes será mantida no caso de adotar ordens de equipe.
- Não podemos esconder de vocês, temos de agir como sempre. Se damos uma ordem escondida vamos passar por idiotas.
Depois do que já aconteceu este ano, é provável que se Hamilton e Rosberg lutarem pela mesma colocação, algo muito provável, pela eficiência do modelo W07 Hybrid da Mercedes e a competência dos dois pilotos, o próprio Wollf venha no rádio para lembrá-los do que ficou acertado entre todos na escuderia. Por fim, o diretor afirmou que os desgastes de Spielberg não vão interferir em nada na definição dos detalhes finas do contrato de Rosberg, ainda não assinado.
Fonte:G1/FÓRMULA 1

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