sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Neymar completa um ano de PSG com desafio de superar temporada frustrante

Há exatamente um ano, uma negociação estratosférica sacudia o futebol mundial: por 222 milhões de euros, o Paris Saint-Germain tirava Neymar do poderoso Barcelona. O espanto não era somente pelo valor - então a maior transação da história -, mas pelo simbolismo da mudança: no auge, o craque brasileiro deixava um clube com o peso do Barça pelo desafio de brilhar em um "emergente" PSG. No fundo, os sonhos de grandeza do time parisiense se moldavam perfeitamente aos desejos do novo astro.

Longe da sombra de Messi, Neymar poderia mostrar ao mundo que já estava pronto para ser o número 1, levando a reboque o PSG a um novo patamar na hierarquia futebolística europeia, de preferência com o inédito título da Liga dos Campeões.

Esse era o roteiro planejado pelo camisa 10 da seleção brasileira e pelos dirigentes franceses. A vida real, porém, mostrou que o futebol tem seus próprios enredos, e que o caminho para a glória às vezes é tortuoso. Jogador e clube ainda podem alcançar seus sonhos. Convém, no entanto, tentar entender e aprender com os revezes de uma temporada inicial que ficou bem longe do esperado.

O Neymar que chegou para reinar globalmente afundou em meio a crises de ego, problemas com rivais e colegas de time, uma contusão grave que encerrou precocemente a temporada e, para piorar, uma Copa do Mundo que, em vez de redentora, virou seu maior pesadelo. Com a imagem arranhada pela fama de exagerar as faltas sofridas, não conseguiu brilhar no palco mais importante, e ficou pela primeira desde que chegou ao futebol europeu fora da lista de candidatos ao prêmio da Fifa de melhor do mundo, divulgada logo após a Copa.

Neymar no treino do Paris Saint-Germain na China (Foto: REUTERS/Bobby Yip)

Agora, no início de um novo ciclo no PSG, terá de driblar a desconfiança mundial e aprender a dividir os holofotes com o novo queridinho do futebol francês, o campeão mundial Kylian Mbappé, 19 anos e status de protagonista no estrelado elenco do clube parisiense.

- O Mbpappé mudou de patamar. Ele é outro jogador, um jogador campeão mundial, um jogador de gol em final de Copa do Mundo. Conseguiu o que o Neymar sonha fazer, que é chegar em uma final de Copa do Mundo, ganhar uma Copa do Mundo. Então os pesos ficam mais próximos, as importâncias ficam mais equivalentes - avalia o comentarista do Sportv Maurício Noriega.

Os dois chegaram quase juntos ao PSG - Mbappé foi contratado ao Monaco no fim de agosto de 2017. Mas os holofotes eram todos de Neymar. Que correspondeu plenamente às expectativas no início da trajetória em Paris: cinco gols e cinco assistências nos cinco primeiros jogos pelo novo clube.


Neymar e Cavani: quem bate o pênalti? (Foto: Christophe Simon/AFP)

O primeiro sinal amarelo, no entanto, se acendeu quando Neymar e o uruguaio Cavani começaram a duelar pelo direito de bater os pênaltis. Cobrador oficial, Cavani não cedeu aos pedidos do brasileiro para bater na vitória por 6 a 2 sobre o Toulouse. Contra o Lyon, nova saia justa. Por intervenção do colega de seleção Daniel Alves, foi Neymar, e não o uruguaio, quem cobrou uma falta da entrada da área, com perigo. Logo depois, Cavani fez valer sua posição de primeiro batedor, e Neymar deixou visível o desapontamento. E ainda era setembro, quase uma temporada inteira pela frente.

Para Muricy Ramalho, comentarista e ex-técnico de Neymar no Santos campeão da Libertadores em 2011, parte da responsabilidade na disputa Neymar x Cavani recai sobre os ombros do então treinador do PSG, o espanhol Unai Emery.

- O capítulo "pênalti" com o Cavani, foi uma coisa que não foi legal para a imagem do Neymar, mas aquilo foi uma coisa do técnico. Tem que ter um jogador definido para bater o pênalti, não pode deixar como deixou. Faltou comando do treinador - acredita Muricy.

O imbróglio com Cavani chegou ao auge em janeiro de 2018. E mostrou, pela primeira vez de forma contundente, que a corda podia, sim, arrebentar do lado mais forte.

Mesmo tendo feito quatro gols na goleada por 8 a 0 sobre o Dijon, Neymar saiu vaiado pela própria torcida do PSG, não saudou os torcedores ao deixar o campo e se recusou a falar com a imprensa. O motivo? Cobrou um pênalti sofrido por Cavani, contrariando o pedido vindo da arquibancada, que gritava o nome do uruguaio. Se marcasse, o camisa 9 se tornaria o maior artilheiro da história do PSG, com 157 gols. Neymar fez seu quarto gol na partida, e conseguiu a proeza de ser vaiado no seu próprio estádio.

O restante do ano foi uma sucessão de problemas. Um deles, pelo menos, criado pelo próprio brasileiro, ao estender o braço para erguer o rival Traoré, do Rennes, e depois deixar o jogador "no vácuo". A brincadeira foi muito criticada pela imprensa europeia.

No âmbito estritamente esportivo, mais dificuldades. No dia 14 de fevereiro, no jogo de ida das oitavas de final da Liga dos Campeões, uma derrota por 3 a 1 para o Real Madrid, no Santiago Bernabéu, complicou o sonho do PSG levantar o título inédito.

Neymar fraturou o pé direito em jogo contra o Olympique de Marselha (Foto: REUTERS/Stephane Mahe)

Ainda havia a esperança de uma virada em casa. Uma semana antes do jogo da volta, porém, Neymar sofreu uma fissura no quinto metatarso do pé direito em um lance isolado na vitória por 3 a 0 sobre o Olympique de Marselha. Operado, viu o PSG perder de novo para o Real (2 a 1) e dar adeus à Champions.

Acabava assim a primeira temporada de Neymar no PSG, com as conquistas protocolares do Campeonato Francês, Copa da França e Copa da Liga Francesa, quase uma obrigação diante do investimento extraordinário feito pelo clube. Restava a Neymar se recuperar a tempo de dar a volta por cima na Copa do Mundo.

O sonho do hexa, porém, acabou nas quartas de final, diante da Bélgica. E Neymar saiu da Copa sem conseguir brilhar individualmente. Pior: provocado pelos adversários e muitas vezes caçado em campo com faltas, o camisa 10 não soube lidar com a situação. Exagerou nas reclamações, nas discussões com os rivais e, principalmente, nas reações às entradas duras. Acabou virando chacota mundial pela sucessão de quedas e rolamentos no gramado, nem sempre justificados.

- O Neymar desta temporada foi um Neymar um pouco mais midiático, muito mais de chamar atenção. Não pela contusão apenas, mas por tudo, pela transferência, pela relação dele com mídia social. Tudo isso acho que acaba prejudicando um pouco o Neymar - opina Noriega.

A temporada desastrosa, agora, é passado. Neymar já se reapresentou ao PSG, que está de técnico novo, o disciplinador Thomas Tuchel. Um novo ciclo, com os mesmos sonhos. E um desafio ainda maior do que o de um ano atrás: chegar ao topo do mundo do futebol, após uma queda brutal. Para isso, só tem um caminho: jogar bola.

- Não tem como fazer de outra maneira. Ele pode explicar mil coisas, como está explicando, mas as pessoas não entendem. O que vai mudar tudo isso, essa imagem que não está legal, é dentro de campo, é ali que ele vai mostrar que veio para ser o melhor do mundo - diz Muricy.

- Para essa segunda temporada ele tem que pensar em duas coisas apenas: treinar e jogar. Porque ele precisa da bola. Ele precisa mostrar no campo todo o potencial que ele tem. Se ele se fechar em torno da carreira, do treinamento, dos jogos e do rendimento, ele tem tudo pra voltar a ser um dos melhores jogadores do mundo - conclui Noriega.

FONTE:SPORTV/FUTEBOL INTERNACIONAL 2018

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